
Rodrigo Pazetto
Os ares da serra: tuberculose, isolamento e a origem da hospitalidade de Gramado
Diz-se que o turismo em Gramado nasceu de doentes que subiam a serra em busca de cura para a tuberculose. A frase é bonita, mas inverte a história. Nos anos 1920 e 1930 não havia remédio capaz de curar a doença, e quem subia a serra, muitas vezes, não vinha buscar tratamento: vinha sendo afastado.
Naquelas décadas, a tuberculose era a grande doença das cidades. Cortiços, fábricas mal ventiladas e desnutrição favoreciam um bacilo transmitido pelo ar. Em São Paulo, até a década de 1930, ela respondia por quase 70% das mortes por doenças infecciosas. A medicina conhecia o agente desde Robert Koch, em 1882, mas não tinha a arma: o primeiro antibiótico eficaz, a estreptomicina, só chegaria aos pacientes em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial. Até lá, a única ferramenta real de controle era separar o doente do sadio.
É daí que vem o hospital pavilionar. Em vez de um grande edifício único, erguiam-se blocos baixos e separados, com janelas altas e ventilação cruzada, cada um destinado a um tipo de doente — homens de um lado, mulheres de outro, infecciosos longe de todos. Em Porto Alegre, o hospital de isolamento do Arraial São José, na atual Avenida Bento Gonçalves, tinha seis pavilhões e recebeu doentes de hanseníase e, depois, tuberculosos. No mesmo terreno está hoje o Hospital Sanatório Partenon. O desenho do prédio era, ele próprio, o tratamento possível.
A climatoterapia completava a lógica. Os médicos da época recomendavam repouso, boa alimentação e o clima de altitude, inspirados nos sanatórios suíços. Não era charlatanismo: era a melhor medicina disponível, e muitos doentes de fato melhoravam. Mas o ar da montanha não mata o bacilo. Por isso “ir tomar os ares da serra” carregava duas mensagens: para o doente e sua família, esperança; para a cidade que ficava para trás, proteção. Relatos do período descrevem doentes pobres despachados das capitais por funcionários públicos, com apenas a passagem no bolso, rumo às estâncias de montanha.
Gramado entra nessa história quando se torna acessível. O trem chegou à Várzea Grande em 1919 e à estação central em 1921; o Hotel Bertolucci recebia hóspedes desde 1918. Subiam veranistas de Porto Alegre e, como em todas as serras brasileiras da época, também quem vinha por recomendação médica. Em outras estâncias, como Campos do Jordão, doentes precisavam ter copos e talheres com o próprio nome, e pensões recusavam os casos graves. Receber alguém que a própria cidade afastou, sem saber se ele se curaria, exigia mais que um quarto disponível: exigia disposição para oferecer dignidade a quem estava em isolamento. Essa é a origem menos contada da hospitalidade serrana.
Quando a cura chegou, a hospitalidade ficou. Depois da estreptomicina vieram a isoniazida, em 1952, e a rifampicina, no fim dos anos 1960. Hoje, no Brasil, a tuberculose sensível é tratada com o esquema RHZE: dois meses de rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol, reunidos num único comprimido de dose fixa ajustado ao peso, seguidos de quatro meses de rifampicina e isoniazida. São seis meses de tratamento, feito em casa e acompanhado pelas unidades de saúde, com cura na grande maioria dos casos em que é seguido até o fim. O que antes exigia anos de internação virou um tratamento ambulatorial. Os sanatórios esvaziaram, e as estâncias que só viviam da doença perderam a razão de existir.
Gramado sobreviveu porque já havia aprendido a receber. Durante a Segunda Guerra, com o litoral com algumas restrições à população civil, a vila foi divulgada como “maravilha de veraneio”; em 1954 veio a emancipação. O ativo que a região construiu não foi um remédio nem um sanatório, mas uma cultura de acolher bem quem chega de fora, lapidada ao longo de um século até a hotelaria, a gastronomia e os eventos profissionais de hoje. Quando a medicina não tinha o que oferecer, a serra ofereceu acolhimento. Talvez seja esse o traço mais autêntico de Gramado: saber receber bem quem chega, inclusive quem chega frágil.
Dr. Rodrigo de Oliveira Pazetto — médico oftalmologista, curador de saúde da revista Boulevard Gramado e diretor da Gramado Clínica de Olhos. CRM-RS 25748 · RQE 16763.
Sep 25, 2026 · @Rodrigo Pazetto
