
Gabriela Michaelsen
Quando a tela ilumina o futuro
Há momentos em que Gramado parece mudar de ritmo. Durante o Festival de Cinema, isso acontece de uma maneira muito especial. As luzes, os encontros, os artistas, os filmes, o movimento nas ruas e toda a atmosfera que envolve estes dias fazem parte de uma história que aprendemos a reconhecer e admirar.
Para quem nasceu e vive aqui, porém, talvez exista algo ainda mais bonito por trás de tudo isso. O Festival não ocupa apenas as telas. Ele faz parte da memória de Gramado. Gerações cresceram vendo a cidade transformar-se durante esses dias, acompanhando famosos chegarem, talentos serem reconhecidos e o cinema brasileiro encontrar aqui o seu espaço.
Com o passar do tempo, aprendi que a verdadeira importância de um evento não está somente naquilo que acontece enquanto as luzes estão acesas. Está também naquilo que permanece quando elas se apagam. E talvez seja justamente aí que esteja um legado e uma das conexões mais bonitas que o evento pode construir: a conexão com as novas gerações.
No ano de 2024 fui convidada por Elisabete Hausmann, a Betinha, para estar mais próxima do Educavídeo, projeto destinado a crianças e adolescentes, uma escola de cinema. Desde então, nos os últimos três anos, eu tenho tido a honra de ser madrinha deste projeto que, neste ano, completa 15 anos de trajetória. Esta proximidade, permitiu-me testemunhar a entrega e dedicação das professoras que ministram, com maestria, mais de 100 alunos, e enxergar, de uma maneira ainda mais clara, o potencial que existe quando educação, cultura e audiovisual se encontram.
Quando pensamos em cinema, muitas vezes pensamos no resultado final: na tela, na estreia, nos atores, diretores, produtores e prêmios. Mas, antes de qualquer filme, existe alguém imaginando uma história, um olhar, uma pergunta, uma ideia que ainda não encontrou forma.
É isso que mais me encanta no Educavídeo. Ver jovens descobrindo que podem observar o mundo e transformá-lo em narrativa. É perceber que o audiovisual também pode ser uma ferramenta de educação, expressão e pertencimento. Uma câmera, nas mãos de um jovem, deixa de ser apenas um equipamento. Pode se tornar uma maneira de olhar para a própria cidade, para sua família, seus amigos, seus conflitos, seus sonhos e para a realidade ao seu redor.
Existe algo muito poderoso em descobrir, ainda cedo, que a nossa visão de mundo também merece ser compartilhada. Talvez nem todos aqueles jovens sigam profissionalmente o trabalho com audiovisual. Alguns poderão se tornar cineastas, atores, roteiristas, produtores ou técnicos. Outros escolherão caminhos completamente diferentes. Mas acredito que todos levam alguma coisa dessa experiência.
Aprendem a contar uma história, trabalhar em equipe, ouvir, criar, defender uma ideia e olhar para uma situação por diferentes ângulos. E, principalmente, percebem que também podem ser protagonistas. É por isto que ser madrinha desse projeto tem um significado tão especial para mim. Representa uma forma de dizer que acredito nesses jovens, no talento que talvez ainda esteja sendo descoberto e nas ideias que começam pequenas, mas podem ganhar dimensões que hoje nem conseguimos imaginar.
Empreender também passa por essa compreensão. O desenvolvimento de uma cidade não se mede apenas pelos negócios que ela cria, mas também pelas oportunidades que é capaz de construir. Investir em projetos como o Educavídeo é investir em formação, criatividade, repertório e futuro. Quando quem empreende entende que seu papel pode ir além da atividade empresarial e contribuir para iniciativas de educação e cultura, fortalece não apenas um projeto, mas a própria comunidade e as gerações que darão continuidade a ela.
Gramado sempre soube compreender a importância de criar experiências. Foi assim com o turismo, com os eventos, com a gastronomia e com tantas iniciativas que ajudaram a construir a cidade que conhecemos. Mas existe uma etapa ainda mais importante: garantir que as próximas gerações não sejam apenas espectadoras dessa história. Que elas também tenham ferramentas para escrevê-la.
Quando um festival com a visibilidade que o Festival de Cinema proporciona para Gramado se conecta à educação e abre espaço para novos olhares, cria-se algo que ultrapassa a programação de alguns dias. Cria-se continuidade. E acredito muito nisso. Tradições só permanecem vivas quando conseguem conversar com o futuro.
Preservar não significa simplesmente repetir aquilo que já foi feito. Significa compreender a essência do que construímos e permitir que novas gerações encontrem sua própria maneira de continuar essa história. Talvez, entre tantos filmes exibidos, encontros realizados e histórias celebradas, algumas das cenas mais importantes estejam justamente ali: no olhar de um jovem descobrindo que também é capaz de criar.
Todo grande projeto começou com alguém acreditando em uma ideia. E talvez o próximo grande diretor, roteirista, ator ou contador de histórias esteja hoje em uma sala de aula da nossa cidade, experimentando uma câmera, escrevendo suas primeiras cenas ou simplesmente descobrindo que existe um lugar para a sua voz.
Não sabemos quem será ou até onde essa experiência poderá levá-lo. E talvez essa seja justamente a beleza. O futuro ainda não foi escrito. Mas podemos ajudar a criar as condições para que ele seja.
Ser madrinha do Educavídeo me faz olhar para o Festival de Cinema de Gramado também por esta perspectiva. Com orgulho por tudo aquilo que já foi construído, mas principalmente com entusiasmo por aquilo que ainda podemos construir.
Porque um festival celebra histórias. A educação cria oportunidades para que novas histórias possam nascer. E quando essas duas forças se encontram, Gramado não está apenas projetando filmes em uma tela. Está projetando o seu futuro.
