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Coluna Ricardo Bertolucci

Gramado: a transição de um destino para uma narrativa viva

Gramado: a transição de um destino para uma narrativa viva

Por Ricardo Bertolucci 

Gramado nunca foi um acaso. Quem observa a cidade apenas pelo seu resultado, ruas cuidadas, arquitetura coerente, eventos consolidados, corre o risco de não compreender o que realmente a sustenta: uma construção contínua, coletiva e profundamente intencional.

Hoje, no entanto, vivemos um novo momento. Não se trata apenas de manter o que foi feito, mas de reinterpretar o que somos. Gramado está em transição. E essa transição tem um eixo claro: deixar de ser percebida apenas como um destino turístico para se afirmar como uma narrativa viva. É nesse contexto que surge o conceito “Gramado — Feita de Histórias”.

Essa não é uma mudança estética. É uma mudança de lógica.

Durante décadas, Gramado se consolidou com base em atributos tangíveis, infraestrutura, eventos, organização urbana. Esse modelo foi essencial e continua sendo. Mas o mundo mudou. Os destinos mais relevantes hoje não competem apenas por estrutura; competem por significado. E significado nasce de identidade.

Foi com esse entendimento que iniciamos um processo estruturado de reposicionamento, contando com o apoio da consultoria N Lugares Futuros. O trabalho não partiu de um exercício criativo isolado, mas de um diagnóstico profundo sobre o que torna Gramado verdadeiramente singular.

E aqui está um ponto central: singularidade não é aquilo que queremos ser. É aquilo que só nós podemos ser.

Gramado não é apenas bonita. Não é apenas organizada. Não é apenas turística. Gramado é uma cidade que, ao longo de sua história, construiu uma capacidade rara de transformar realidade em experiência e experiência em memória.

Desde os primeiros imigrantes, passando pela construção da identidade arquitetônica, até a criação de eventos como o Natal Luz ou o Festival de Cinema, há um padrão que se repete: Gramado cria histórias que são vividas pelas pessoas.

O conceito “Feita de Histórias” nasce dessa constatação. Ele não é uma invenção. É uma leitura.

Mas mais importante do que o conceito em si é o que ele exige de nós.

Essa transição implica uma mudança de postura em todas as frentes.

Na gestão pública, significa planejar a cidade não apenas como espaço físico, mas como experiência narrativa.

No trade turístico, significa entender que cada serviço prestado, do hotel ao restaurante, é parte de uma história maior.

Na comunicação, significa abandonar discursos genéricos e assumir uma identidade própria, coerente e contínua.

No urbanismo, significa reforçar uma estética que dialogue com essa narrativa, respeitando o passado e projetando o futuro.

Não se trata de “contar histórias” no sentido superficial. Trata-se de estruturar a cidade como um sistema de histórias.

Essa lógica nos permite avançar em algo que poucos destinos conseguem: consistência de identidade ao longo do tempo.

E isso é estratégico.

Num cenário global em que destinos competem cada vez mais por atenção, investimento e desejo, não vence quem faz mais barulho. Vence quem constrói mais sentido.

Gramado já provou que sabe se reinventar sem perder sua essência. A transição que estamos vivendo agora é mais um desses momentos, talvez o mais sofisticado deles. Porque não se trata apenas de crescer ou modernizar. Trata-se de refinar o que somos.

“Feita de Histórias” não é um slogan. É um compromisso.

Um compromisso de continuar construindo uma cidade onde o passado não é esquecido, o presente é vivido com intensidade e o futuro é desenhado com intenção.

Gramado segue sendo um destino.

Mas, acima de tudo, passa a ser compreendida como aquilo que sempre foi:

uma história em constante construção.

 

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