
Rafael Bazzan
A Cidade Como Fruto de Nossas Escolhas
A Cidade Como Fruto de Nossas Escolhas Rafael Bazzan, arquiteto Na coluna anterior, falamos sobre Gramado como uma ideia coletiva. Uma ideia construída ao longo de mais de um século por muitas pessoas, em diferentes momentos, fazendo pequenas escolhas que, somadas, deram forma à cidade que conhecemos hoje. Portanto, essa “ideia Gramado” se materializa na paisagem. E paisagem, sob o olhar de quem pensa a cidade, não é apenas o que a natureza nos oferece, mas a soma do território natural com tudo o que construímos sobre ele, e a maneira como essas duas dimensões se relacionam. Em um mundo onde as cidades estão cada vez mais parecidas e perdem sua identidade, manter um lugar reconhecível tornou-se um ativo valioso. Basta olhar para fotografias genéricas de ruas pelo mundo para perceber a dificuldade de identificar onde estamos. Gramado vai na contramão: uma única imagem costuma ser suficiente para sabermos que estamos aqui. Isso não é obra do acaso, mas fruto de decisões contínuas, guiadas por essa ideia coletiva. Os vales, as encostas, os cursos d’água, os banhados e os remanescentes de Mata Atlântica, incluindo as araucárias, formam a base sobre a qual a cidade se construiu. Mas basta um olhar um pouco mais atento para perceber que a nossa paisagem, mesmo aquela que parece intocada, também é feita de escolhas de manejo e apropriação coletiva. O morro das Orquídeas pode ser um exemplo disso. Plátanos, hortênsias, azaleias e tantas outras espécies que hoje parecem inerentes à natureza local foram trazidas para cá e incorporadas. Ao longo do tempo, elas se integraram à arquitetura, formando a ambiência tão característica da imagem que projetamos da cidade. Como exemplo de paisagem construída podemos citar o Lago Negro e o Parque Knorr. Gramado já foi uma pequena cidade de casas de madeira, construídas com os materiais e técnicas disponíveis naquele momento. Com o desenvolvimento da cidade e do turismo, nossa arquitetura também foi se transformando. As referências culturais dos imigrantes se misturaram a influências europeias e brasileiras, criando uma arquitetura própria. Mantivemos elementos característicos e, fundamentalmente, uma escala compatível com o que somos: uma pequena cidade da Serra Gaúcha. Mas, para além da topografia e das construções, há uma outra dimensão que molda a paisagem e que também é fruto de escolhas: o espaço intermediário. É nessa fronteira entre o público e o privado que a vida urbana realmente acontece. É o palco dos encontros cotidianos e o lugar onde uma boa cidade é, de fato, vivenciada. Uma calçada bem desenhada, uma árvore no lugar certo projetando sombra no verão, um banco que convida a sentar e observar o movimento, uma fachada que conversa com a rua, permitindo que a loja mantenha as portas abertas para quem passa a pé. São intervenções pontuais, mas é da soma desses pequenos gestos que nasce a qualidade da nossa experiência urbana. São essas gentilezas espaciais que, muitas vezes sem percebermos, nos fazem criar apego por um lugar. É curioso pensar que até aquilo que nos parece puramente natural é, no fundo, resultado da intervenção humana. E é justamente aí que mora o nosso maior desafio. Gramado vai continuar mudando. Novos edifícios serão erguidos, teremos que adaptar nossa infraestrutura às mudanças climáticas, responder às novas dinâmicas econômicas e, acima de tudo, às necessidades de quem vive aqui. Tudo isso parece, à primeira vista, assunto técnico, mas não é. São escolhas reais sobre a cidade que queremos continuar construindo e sobre o que desejamos reconhecer quando olharmos para Gramado daqui a vinte ou trinta anos. A paisagem de Gramado não aconteceu por acaso. Ela é resultado de escolhas. Durante mais de um século, milhares de pequenos gestos construíram a Gramado que reconhecemos hoje. E para cada nova escolha que fizermos, devemos ter o compromisso de continuar construindo essa mesma ideia.
Rafael Bazzan,
Secretário de Planejamento e Arquiteto
Gramado, 16 de setembro de 2026
