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Josiano Schmitt – Gramado é uma inconformada

Gramado é uma inconformada

Quem estava aqui quando o apito do trem quebrou o silêncio, em 1921?
Quem estava aqui quando imigrantes, com urgência, abriam estradas com nada além de pobreza e coragem?
Quem estava aqui quando a placa de “aberto” foi estreada na vitrine do primeiro restaurante?
Nós estávamos, todos. E estávamos porque carregamos, resilientes e criativos que somos, o DNA da invenção (típico a quem faz desta terra o seu lar): do fazer com a ferramenta crua, porém disponível; do sonhar com um futuro apartado, porém possível; do criar com a inquietude de um projeto ambicioso, porém inconformado.
Gramado é a incubadora de desejos do Brasil, em uma jornada tão orgânica quanto rara. A região cravada entre as montanhas, ainda tímida e recolhida, se fez no século 20 com o desembarque desesperado e um tanto astuto de sujeitos europeus à procura de uma vida digna: com comida, com habitação, com segurança. Pensemos, juntos: qual o maior indicativo de desesperança, se não a fome? E qual o maior guindaste para a transformação, se não o trabalho? Ao combinar (neste caso, literalmente) a fome com a vontade de comer, esta gente vinda do lado de lá do oceano fez o que precisava ser feito: não se conformou.

 

Quem escolheu fazer

Gramado é a soma daquelas e daqueles que semearam esperança ao subir a serra desconhecida; que instituíram uma comunidade de colaboração e pertencimento; e que fabricaram a cultura da hospitalidade, com um processo de bem receber avesso à cópia, tão genuíno e ímpar que é.
Com a chegada da ferrovia, na década de 20, a comida é a protagonista econômica e principal fonte de renda da ainda pequena população – seja na agricultura (aliada à exploração da madeira), no comércio (de armazéns de secos e molhados), na hotelaria (com o estímulo à vinda de turistas), e no transporte (uma vez que estes visitantes chegariam via linha férrea).
A terra provia alimento: para encerrar a fome.
O trabalho gerava renda: para estimular o desenvolvimento.
Com disciplina, perspicácia, ambição e resiliência, mulheres e homens moldaram com orgulho o gentílico “gramadense” e constituíram uma cadeia ancorada na alimentação: ao apresentar cada refeição como um pedaço de Gramado. A hospitalidade com denominação de origem é o berço: primeiro, servimos aos nossos; depois, abastecemos quem por aqui desembarca; e mais adiante, acolhemos quem deseja permanecer.

 

Uma história de inquietação

O segredo é começar. E elas e eles começaram.
Com os embutidos maturando nos porões, com o pão assado em forno de pedra, com as cucas moldadas a mão, com os galetos ao primeiro canto, com as uvas que fariam a comunidade feliz com um tanto de vinho (e um pouco de suco, por que não?).
A produção agrícola inverte a versão de pequeno vilarejo do interior para um destino de entretenimento, de oportunidade de renda, de uma gente crítica e inventiva. Consciente ou não, cada próximo projeto empreendedor que alimentou a indústria criativa e vibrante estava ali, sempre dobrando a esquina mais próxima. Gramado é este território edificado sobre as histórias vividas e contadas por uma gente inconformada: que não cessou, que não descansou, que não desistiu. São os gramadenses que aqui espalharam a boa nova das fondues, dos cafés coloniais, das churrascarias, dos biscoitos, das cantinas; com a mesa farta para compartilhar e nunca esquecer de quem fez da gastronomia o principal porquê de sermos quem somos.
São estes mesmos princípios de coletividade e de desassossego que impulsionam a nós, do recém-nomeado Grupo Terruá, há três décadas (com os restaurantes Di Pietro, MLBK, Catherine e Soleil Casa Perini): com extrema honra e com imensurável respeito nós carregamos o inconformismo de quem entendeu que esta cidade merece e precisa de mais.
É por esta história lapidada desde o fim do século 19 que a matéria-prima de quem serve comida em Gramado não é o pinhão, a erva-mate, a polenta, a galinha, o chocolate. O ingrediente mais inseparável do cozinhar e do serviço sempre foi, ainda é e desejamos que permaneça sendo: a certeza de que é preciso estar em movimento.

 

JOSIANO SCHMITT
Diretor Grupo TERRUÁ
Di Pietro
MLBK
Catherine
Soleil

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